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Ao desembarcar no Porto de Santos, porta de entrada dos que chegavam a São Paulo, os imigrantes judeus, homens, mulheres, crianças, pessoas das mais variadas idades e em diferentes condições, eram recebidos e acolhidos por um representante de uma entidade assistencial ou por um parente ou amigo da mesma localidade de origem.

A recepção no desembarque era um verdadeiro porto seguro para iniciar a nova vida. Após uma longa viagem de navio e um processo de emigração que envolvia despedidas dolorosas e, com frequência, riscos e fugas por meio de fronteiras, os imigrantes encontravam língua e cultura desconhecidas. Eram originários da Europa Oriental e da Rússia a partir da década de 1910; do Líbano e da Síria, nos anos 1920, e da Europa Central, principalmente Alemanha, nos anos 1930. Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil receberia sobreviventes do Holocausto e novas levas de imigrantes da Europa e do Oriente Médio.

A política imigratória brasileira combinou, desde o século 19, concepções e medidas que oscilaram entre abertura e fechamento, tolerância e racismo, a partir de ideias definidas sobre quais eram os imigrantes “desejáveis” e os “indesejáveis”. As portas do País estiveram abertas aos imigrantes judeus até a primeira metade dos anos 1930, mas houve um intervalo entre 1937 e 1945 em que circulares secretas antissemitas restringiram e impediram diretamente a entrada de imigrantes.

Esta exposição, cuja pesquisa documental e iconográfica foi realizada no Centro de Memória do Museu Judaico de São Paulo – principal acervo de documentação histórica da presença judaica no País –, destaca a rede de organizações que acolheram os imigrantes e que contribuíram para consolidar a própria comunidade judaica.

Roney Cytrynowicz

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Acolhendo os imigrantes, os novos integrantes da comunidade

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A imigração judaica a São Paulo começou a se adensar nos anos da Primeira Guerra Mundial. Cerca de 40 mil imigrantes entraram entre a década de 1910 e a primeira metade dos anos 1930. Para amparar cada um dos que chegavam em suas múltiplas necessidades, foram fundadas a Ezra e a Caria. A Ezra atuou entre os imigrantes da Europa Oriental e os do Oriente Médio e a Caria, entre os da Alemanha e também Áustria e Itália. Eram organizações que estruturavam a vida comunitária: a Ezra assumiu as vezes de entidade representativa dos judeus paulistanos e a Caria foi embrião da Congregação Israelita Paulista (CIP).

Sociedade Beneficente Amigo dos Pobres Ezra

“Quando eu cheguei, meu marido ainda não tinha uma casa onde morar e, como tinha muita imigração, a Ezra alugou uma casa bem grande que tinha salão para guardar a bagagem, escritório da diretoria e sala de reuniões e muitas senhoras da sociedade que ajudavam. A Ezra apoiava nos primeiros tempos até que eles começavam a trabalhar.

Comissão de Assistência aos Refugiados Israelitas da Alemanha – Caria

Em 1933, logo após a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha, milhares de judeus alemães chegaram a São Paulo. Eram, em geral, pessoas com profissões e negócios estabelecidos, profundamente identificados com a cultura alemã e que nunca imaginaram deixar aquele país.

Passaporte de imigrante expedido na década de 1920.

Passaporte de imigrante expedido na década de 1910.

Passaporte de imigrante expedido na década de 1910.

Livro de registro das Cartas de Chamada da Ezra, que auxiliava no processo de obter este documento exigido pelo governo brasileiro para receber os imigrantes, década de 1930; em muitos casos, os homens imigravam antes e chamavam a esposa e os filhos quando já haviam conseguido condições mínimas de vida no Brasil.

Livro com as listas de imigrantes entrados pelo porto de Santos e registrados pela Ezra, em 1928, permite conhecer, além de informações pessoais, exemplos dos auxílios oferecidos pela entidade: pagamento de pensão, auxílio moral, assistência médica, empréstimo de uma máquina Singer para uma imigrante costureira, colocação pelo Bureau de Travail para sapateiros, engenheiros e alfaiates, encaminhamento e pagamento de passagens.

Diretores da Ezra, com Benjamin Kulikovsky (de gravata borboleta) sentado ao centro.

Inauguração da sede social da Sociedade Beneficente Ezra, na Rua Guarani, Bom Retiro, com a presença de Leon Feffer, do deputado Jacob Salvador Zveibil, de Maurício Flank, Salomão Gurman, Josef Zilberberg, Adolpho Beresin (com a filha) e Felipe Kauffman, 1963.

Passaportes alemães com carimbos “J”, impostos pelos nazistas para identificar e marcar os judeus, assim como os nomes “Israel” e “Sara” compulsoriamente acrescentados aos nomes; com a ascensão do nazismo ao poder, centenas de imigrantes e refugiados judeus-alemães chegaram ao Brasil.

Passaportes alemães com carimbos “J”, impostos pelos nazistas para identificar e marcar os judeus, assim como os nomes “Israel” e “Sara” compulsoriamente acrescentados aos nomes; com a ascensão do nazismo ao poder, centenas de imigrantes e refugiados judeus-alemães chegaram ao Brasil.

Passaportes alemães com carimbos “J”, impostos pelos nazistas para identificar e marcar os judeus, assim como os nomes “Israel” e “Sara” compulsoriamente acrescentados aos nomes; com a ascensão do nazismo ao poder, centenas de imigrantes e refugiados judeus-alemães chegaram ao Brasil.

Passaportes alemães com carimbos “J”, impostos pelos nazistas para identificar e marcar os judeus, assim como os nomes “Israel” e “Sara” compulsoriamente acrescentados aos nomes; com a ascensão do nazismo ao poder, centenas de imigrantes e refugiados judeus-alemães chegaram ao Brasil.

Edição especial da Crônica Israelita, em dezembro de 1946, comemorativa dos 10 anos da Congregação Israelita Paulista. Criada em 1936, a CIP assumiu as atividades de assistência desempenhada pela Caria.

Esquema ilustrativo mostra as atividades desenvolvidas na CIP, com destaque para as atividades de Assistência Social e Auxílio Além-Mar. A CIP deu continuidade às atividades da Comissão de Assistência aos Refugiados Israelitas da Alemanha – Caria –, fundada em 1933, que auxiliou financeiramente mais de 300 famílias refugiadas, em cooperação com várias entidades judaicas internacionais, como Joint, Hias e JCA-Hicem.

Sala de aula na CIP com rabino Fritz Pinkuss ensinando hebraico, tendo um retrato do presidente Getulio Vargas na parede ao fundo. A CIP se tornou o centro da comunidade dos imigrantes judeus-alemães que fugiram do nazismo, desenvolvendo uma série de atividades educacionais e assistenciais.

Luiza Lorch nasceu em São Paulo, filha de Berta e Maurício Klabin, e dividiu a infância e juventude entre Brasil e Europa. Luiza teve grande atuação comunitária e filantrópica, tendo sido presidente da Gota de Leite da B’nei B’rith e participado da diretoria do Lar das Crianças Israelita da Sociedade das Damas Israelitas.

Luiz Lorch nasceu na Alemanha em 1894, onde estudou medicina. Casou com Luiza Klabin em 1924 e, em 1928, imigrou ao Brasil. A partir de 1933, com a chegada do nazismo ao poder, começam a chegar ao País muitos imigrantes judeus da Alemanha e o casal Luiz e Luiza Lorch tornou-se o centro da vida judaico-alemã na cidade e o coração de uma rede informal de apoio aos imigrantes.


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Cuidando das crianças e plantando o futuro

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Os imigrantes eram homens e mulheres de várias idades, muitos idosos, mas também crianças e jovens. A assistência à infância zelava pela saúde e bem-estar das crianças cujas famílias não tinham condições materiais ou estrutura para tal, garantia às mães e aos familiares a possibilidade de trabalhar e também cuidava de crianças doentes e órfãs. A comunidade judaica manteve a Gota de Leite e dois diferentes lares para crianças, na década de 1930, que se complementavam: Lar das Crianças das Damas Israelitas e Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista.

Gota de Leite da B´nei B´rith

“Pelo que nós vimos no trabalho da Cruzada Pró-Infância, achamos que seria muito necessário, possível e útil um trabalho no Bom Retiro. Começamos em um único quarto a fazer o que era necessário: pesar crianças, distribuir remédios, às vezes era necessário transferir para um serviço público.

Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista (CIP)

“Educar, para nós, significa defender as crianças contra as injustiças do mundo e fortalecê-las na busca de sua identidade e do sentimento de pertencer à família e à comunidade.

Lar das Crianças das Damas Israelitas

Seguindo os passos dos pais, Bertha e Maurício Klabin, Luiza Klabin, nascida em 1901, se dedicou às causas assistenciais na comunidade judaica. Bertha, nascida na Rússia, foi uma das fundadoras da Sociedade das Damas Israelitas e Maurício, originário da Lituânia e industrial fundador do grupo Klabin, o doador do terreno do Cemitério Israelita da Vila Mariana, entre inúmeras outras ações.

A revista Aonde Vamos? destaca a festa comemorativa de Sucot no Lar das Crianças da CIP, com o casal Henrique e Miriam Rattner, diretores do Lar, ao centro e cercados pelas crianças, década de 1950.

Meninos e meninas do Lar das Crianças da CIP em apresentação teatral da peça “A Arca de Noé” no quintal da entidade, 1941.

O jornal Crônica Israelita publica o convite para o lançamento da Pedra Fundamental da nova sede do Lar das Crianças da CIP no bairro de Santo Amaro em 14 de abril de 1947.

O jornal Crônica Israelita publica o convite para o lançamento da Pedra Fundamental da nova sede do Lar das Crianças da CIP no bairro de Santo Amaro em 14 de abril de 1947.

Desenho representa algumas das crianças acolhidas e amparadas pelo Lar das Crianças, grupo constituído por aquelas que não tinham família ou cujas famílias, por diversas razões, não podiam proporcionar-lhes o necessário: órfãs de pai ou mãe, pais inválidos, filhos de imigrantes recém-chegados e “casais empenhados na luta pelo pão diário”, 1947.

Em edição especial da Crônica Israelita, comemorativa dos dez anos de fundação da Congregação Israelita Paulista, em 1946, artigo de Alfred Hisrschberg destacava a atuação do Lar das Crianças e justificava: “Para a coletividade, é a criança em si que representa valor inestimável, indiferentemente de qual a camada social em que tenha nascido ou a situação que seus pais desfrutem”; em destaque, fotos de crianças brincando e a fachada da casa onde o Lar funcionava na Alameda Barão de Piracicaba.

Reunião de voluntárias e colaboradoras do Lar das Crianças da CIP.

Crianças atendidas pelo Lar das Crianças da CIP em atividades cotidianas, 1946.

Crianças atendidas pelo Lar das Crianças da CIP em atividades cotidianas, 1946.

Fachada do Lar da Criança Israelita, na Rua Jorge Velho, no Bom Retiro, inaugurado em 1939.

Hora do descanso das crianças no Lar das Crianças das Damas, que passou para a Ofidas em 1940.


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O protagonismo das mulheres

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Mulheres imigrantes foram muito ativas na criação de instituições de acolhimento para a comunidade em geral e, em particular, para outras mulheres e para as crianças. O amparo a mulheres grávidas foi o principal objetivo da fundação da Sociedade Beneficente das Damas Israelitas, em 1915, nos primórdios da imigração a São Paulo. Duas décadas e meia depois, em 1940, as Damas, o seu Lar das Crianças e a Gota de Leite se uniram para formar a Organização Feminina Israelita de Assistência Social – Ofidas –, dirigida por mulheres e voltada às necessidades e preocupações das mulheres e das crianças.

Sociedade Beneficente das Damas Israelitas

As Damas Israelitas, como eram conhecidas, prestavam auxílios mais urgentes, como assistência às parturientes, pagando suas despesas médicas e hospitalares por ocasião do parto e fornecendo os primeiros cuidados aos recém-nascidos.

Organização Feminina Israelita de Assistência Social – Ofidas

A Ofidas foi fundada por mulheres com a preocupação de compreender as necessidades de suas assistidas a partir da perspectiva da mulher, da criança e da família. Com isso, a ação da Ofidas a diferenciava da Ezra e a complementava.

Imigrantes mulheres se organizaram em diversas entidades assistenciais a partir dos anos 1910, realizando um trabalho que permitiu receber os imigrantes e estruturar a comunidade.

Em várias partes do País as mulheres se organizaram em entidades de assistência às crianças, como na Sociedade de Proteção à Infância Israelita Desamparada, fundada em 1937.

Diretoras e voluntárias do Lar da Criança Israelita, década 1960.

Livro de Atas da Sociedade Beneficente das Damas Israelitas fundada em 1915.

Atas de reunião de diretoria da Sociedade das Damas Israelitas, 1931.

Ata da reunião de diretoria, em 11 de julho de 1932, na qual se delibera sobre as ações “em vista do tempo anormal da revolução”, referência à Revolução de 1932 em São Paulo.

Ata da reunião extraordinária da Sociedade das Damas Israelitas na qual ficou decidida a fusão do Lar da Criança Israelita com a Gota de Leite da B’nai B’rith, 1940.

Ata da reunião extraordinária da Sociedade das Damas Israelitas na qual ficou decidida a fusão do Lar da Criança Israelita com a Gota de Leite da B’nai B’rith, 1940.

Assinatura de Bertha Klabin em livro de atas da Sociedade das Damas Israelitas como presidente da entidade, 1930.

Carimbo comemorativo dos 60 anos da Organização Feminina Israelita de Assistência Social – Ofidas.

Assistente social atendendo na sede da Ofidas diante das fotografias das fundadoras da Sociedade das Damas Israelitas: Olga Tabacow, Bertha Klabin e Olga Nebel, 1959.

A diretora Petronia Teperman no lançamento da Pedra Fundamental da nova sede da Ofidas, 1958.

Crianças atendidas pela Ofidas, década de 1960.

Elisa Kaufman, à dir. segurando o lápis, com outras funcionárias e voluntárias da Ofidas, 1960.


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Organizações internacionais

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O gigantesco esforço que conjugava a emigração e a busca de destinos para os imigrantes envolvia negociar com governos de diferentes países, providenciar documentação e passagens, uma viagem segura e contatos nos locais de chegada. Diversas organizações dos Estados Unidos, da Europa e da América do Sul uniram esforços, estabelecendo uma rede que lidava com as questões globais e locais.

As organizações de imigração e assistenciais internacionais atuaram também diretamente no Brasil. A Ezra trabalhou em coordenação com outras entidades de auxílio aos imigrantes, como a Jewish Colonization Association (JCA), a Hebrew Imigrant Aid Society (Hias) e a Emigdirect. A Caria, por sua vez, trabalhava em contato com a Hias, com a Hilfsvereindeutscher Juden, de Berlim, e depois também com o Joint, que apoiou a fundação do Lar das Crianças da CIP.

Jewish Colonization Association (JCA)

“Então um belo dia apareceu em nossa cidadezinha, na Lituânia, um tal de Dr. Mirkin, alto funcionário da JCA, para procurar quem se interessava em emigrar para o Brasil, informando que a JCA tinha terras no Brasil; isso foi em 1926. O meu pai, que era da comissão da Leischparkasse [Caixa de Empréstimos], casualmente o ouviu expor essa ideia.

Joint

“O Joint estava tirando judeus da Bessarábia, então um representante foi lá procurar famílias que queriam vir para o Brasil. Quem sabia o que era o Brasil? Quando chegamos ao Rio fomos parar na Ilha das Flores. Ficamos oito dias lá até que veio o pessoal do Joint, nos trouxe para o Rio e deram para nós um quarto.

Hebrew Immigrant Aid Society (Hias)

“Em quatro, cinco dias de mar chegamos em Nápoles e não sabíamos nada do que aconteceria. O pouco dinheiro não dava para viver nem uma semana. Foi uma surpresa, o navio atracou e, quando olhamos para baixo, vimos uma pessoa com Maguen David no braço e chamaram a família Bousso! Todos juntos fomos recebidos pelo representante da Hias.

Hilfsverein Deutscher Juden

A Hilfsverein Deutscher Juden, fundada em Berlim em 1901, auxiliava os imigrantes judeus da Europa Oriental e, depois, apoiou a emigração dos judeus alemães entre 1933 e 1939

Mapa da colônia de Philippson, fundada pela Jewish Colonization Association (JCA) no Rio Grande do Sul.

Na Colônia de Quatro Irmãos, fundada pela JCA no Rio Grande do Sul, a escola era uma instituição central e a própria JCA se encarregava de trazer professores de cultura judaica.

Colonos de Quatro Irmãos, uma das colônias formadas pela JCA no Rio Grande do Sul.

Publicação do Comitê Auxiliar do Joint divulga campanhas para arrecadar recursos para entidades de assistência – orfanatos, escolas, lares infantis e institutos – em vários países, colocando a dramática pergunta “Quanto vale a vida de uma criança?”

Publicação do Comitê Auxiliar do Joint divulga campanhas para arrecadar recursos para entidades de assistência – orfanatos, escolas, lares infantis e institutos – em vários países, colocando a dramática pergunta “Quanto vale a vida de uma criança?”

Publicação do Comitê Auxiliar do Joint divulga campanhas para arrecadar recursos para entidades de assistência – orfanatos, escolas, lares infantis e institutos – em vários países, colocando a dramática pergunta “Quanto vale a vida de uma criança?”

Relatório de atividades do Joint em 1945, quando os horrores da guerra na Europa se tornaram conhecidos, com o título “Para que tornem a viver”.

Relatório das atividades de assistência pelo Joint e esquema ilustrativo dos auxílios prestados em 1941.

Relatório das atividades de assistência pelo Joint e esquema ilustrativo dos auxílios prestados em 1941.

Sob o lema “Salvemos os sobreviventes”, o Comitê Auxiliar do Joint lança a campanha de 1946 para “salvar as vítimas que escaparam à sanha nazista”.

“São os filhos de nosso povo” foi o lema da campanha do Joint para atender 150 mil crianças, muitas delas órfãs, em situação de vulnerabilidade na Europa, 1947.


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Cuidando da saúde

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A comunidade judaica cuidou da saúde dos imigrantes e de seus integrantes por meio de consultas médicas, fornecimento de medicamentos, procedimentos ambulatoriais e também apoio a cirurgias e internações hospitalares. As principais entidades que prestavam auxílio direto de saúde eram a Policlínica Linath Hatzedek e o Sanatório de Tuberculosos da Ezra, outras entidades assistenciais também realizavam apoio pontual nesse campo. Para a população em geral, as necessidades de saúde, hospitalares, médicas e de medicamentos eram supridas pelas Santas Casas e hospitais privados e ligados a ordens religiosas, além dos pertencentes a sindicatos e caixas de previdência.

Sociedade Beneficente Policlínica Linath Hatzedek

Consultas médicas e pequenos procedimentos tinham na Sociedade Beneficente Linath Hatzedek, conhecida como Policlínica, fundada em 1929 no bairro do Bom Retiro, uma referência para os imigrantes. Funcionando como ambulatório de saúde, também eram distribuídos medicamentos e realizados radiografias e exames de laboratório.

Sanatório Ezra para tuberculosos

“A tuberculose, no Rio de Janeiro, mata mais gente do que todas as epidemias juntas; as outras epidemias aparecem, fazem muitas mortes, depois acabam, mas a tuberculose mata o ano inteiro, sem cessar um dia”

Abertura do livro de atas das reuniões de diretoria da Sociedade Beneficente Linath Hatzedek, redigido em ídiche.

Ata da primeira reunião dos fundadores da Sociedade Beneficente Linath Hatzedek, em que explicam a necessidade de criação de uma entidade para auxílio aos doentes da “Colônia Israelita” e colocam como objetivos emprestar objetos necessários e “velar junto ao co-irmão doente”, 1929.

Diretoria da Sociedade Beneficente Linath Hatzedek, fundada em 1929.

Carimbo da Sociedade Beneficente Linath Hatzedek.

Portão de entrada do Sanatório da Ezra em São José dos Campos.

Funcionários que atendiam os pacientes com tuberculose, doença de grande prevalência e letalidade e sem tratamento medicamentoso efetivo até os anos 1940.

Funcionário no laboratório e preparo de medicação no Sanatório da Ezra.

Primeiro aparelho de raio X, fundamental no diagnóstico da tuberculose, instalado no Sanatório da Ezra em 1939.

Visitantes de várias cidades comparecem à solenidade de inauguração do Pavilhão 2 do Sanatório da Ezra, que ampliou muito a capacidade de leitos da instituição.

Corredor de pavilhão do Sanatório da Ezra com cadeiras para banhos de sol e repouso, parte do tratamento contra a tuberculose.

O Sanatório da Ezra foi construído com as contribuições de inúmeros doadores, especialmente os sócios e diretores, como Emilio Berezovsky, Hugo Liechtenstein e Mauricio Lerner.

O Sanatório da Ezra foi construído com as contribuições de inúmeros doadores, especialmente os sócios e diretores, como Emilio Berezovsky, Hugo Liechtenstein e Mauricio Lerner.

O Sanatório da Ezra foi construído com as contribuições de inúmeros doadores, especialmente os sócios e diretores, como Emilio Berezovsky, Hugo Liechtenstein e Mauricio Lerner.

A Ezra recebia pacientes de comunidades judaicas de todo o País, assim como coletava doações, registradas em “Livros de ouro”, em dezenas de subcomitês espalhados pelo Brasil.


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Promovendo a educação

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As crianças imigrantes encontravam na escola o ambiente para sua inserção no País que as recebia: aprendiam português, estudavam a história e a geografia do Brasil, encontravam outras crianças e ganhavam autonomia para encontrar seu caminho próprio na sociedade, sem a tutela dos adultos. As primeiras escolas judaicas fundadas em São Paulo participavam da acolhida às crianças imigrantes e aos filhos dos recém-chegados. Não eram propriamente entidades assistenciais, mas cumpriam esta função ao receber inclusive os que não podiam pagar. As escolas também preparavam os jovens para trabalhar e ofereciam cursos profissionalizantes.

Colégio Renascença

“As turmas eram pequenas, com cerca de 20 alunos, e havia uma classe para cada ano. Os alunos eram pobres, muito carentes. A escola lutava com muitas dificuldades para se manter e mesmo para pagar os salários dos professores, que às vezes atrasava”

Outras escolas

“Nos dias de Rosh Hashaná de 1937 sempre tinham aqueles senhores que iam fazer discurso depois da reza, subiam na bimá, diziam que precisávamos de escola, muitas crianças no Brás não tinham onde estudar.

Grupo de alunos do Gymnasio Hebraico-Brasileiro Renascença em visita ao Monumento da Independência, na praça do Museu do Ipiranga, 1933.

Turma de alunos do Colégio Renascença com o diretor Moysés Wainer (à dir.).

Alunos e professores do “Ginásio Hatchia para meninos e meninas”, conforme placa em hebraico ao centro da foto, com símbolos brasileiros e sionistas.

Apresentação dos alunos da Escola Israelita-Brasileira Luiz Fleitlich na festa comemorativa de Simchat Torá, 1938.

Apresentação dos alunos da Escola Luiz Fleitlich no Brás.

Apresentação dos alunos da Escola Luiz Fleitlich no Brás.

Professora e crianças em escola na Rua Três Rios, no Bom Retiro, décadas de 1920/30.

Classe de meninos no primário da Escola Talmud Torá.

Escola Israelita do Cambuci, bairro em que havia um núcleo da comunidade judaica.


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Trabalho e oportunidades

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Encontrar trabalho era uma preocupação essencial dos imigrantes ao chegar ao Brasil. As entidades assistenciais atuavam fortemente neste campo, porque era o trabalho que, ao garantir o sustento e a autonomia dos recém-chegados, permitiria às próprias entidades cuidar de outros que chegavam continuamente. Este apoio podia ser um auxílio para se manter enquanto se procurava uma ocupação, uma busca ativa por meio de agências e contatos com empresas ou, ainda, um empréstimo para, por exemplo, mascatear ou iniciar um pequeno negócio.

Cooperativa de Crédito do Bom Retiro

“Eu acho que o mérito principal da Cooperativa é que era um banco voltado para a coletividade, onde pessoas que tinham poucos recursos, mediante um bom fiador (também às vezes não era tão rico), conseguiam empréstimos para tocar a sua vida. Isso era uma coisa que não existia na época.

Bureau de Trabalho da Caria e da Ezra

Em 1º de março de 1928, o casal de imigrantes poloneses Fishel e Chaia – com os filhos Michel, Wolff, Ettla e Ida, com idades entre 4 e 11 anos – chegou ao porto de Santos, onde foi recebido por um representante da Ezra.

Funcionários em área interna da Cooperativa de Crédito do Bom Retiro.

Diretores e funcionários em frente à sede da Cooperativa de Crédito do Bom Retiro.

Atendimento aos clientes da Cooperativa de Crédito.

Campanha do cofrinho da Cooperativa de Crédito Popular com o lema “Sua filha merece um promissor futuro”.

Campanha do cofrinho da Cooperativa de Crédito Popular com o lema “Sua filha merece um promissor futuro”.

Aula profissionalizante de costura para meninas oferecida pela Ofidas.

Entidades judaicas, como a Caria e a Ezra, mantinham serviços para auxiliar os imigrantes na sua inserção no mercado de trabalho, tanto com pequenos créditos como em colocação em empregos.

Fachada da escola profissionalizante da ORT, iniciativa comunitária que oferecia cursos profissionalizantes e técnicos para “educar os seus filhos para uma vida dura que nos espera ainda no futuro e lançar alicerce para que a mocidade seja capaz de ganhar a vida com dignidade”.


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Compromisso com a terceira idade

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O amparo aos imigrantes da terceira idade logo se tornou uma necessidade na comunidade judaica, inclusive porque muitos, homens e mulheres, já não eram jovens ao chegar ao País, perderam a família na guerra e ficaram sozinhos. Uma entidade foi fundada nos anos 1930 para ser ao mesmo tempo um lar aos que não tivessem mais autonomia para viver sozinhos e um abrigo aos idosos que necessitassem.

Asylo dos Velhos

O Asylo dos Velhos, fundado em 1937, logo se tornou um orgulho na comunidade ao simbolizar os cuidados com os imigrantes idosos. Passaram a viver ali os que queriam compartilhar esta etapa da vida e necessitavam de algum tipo de apoio de saúde ou financeiro.

A entidade Asilo dos Velhos, de amparo aos idosos da comunidade, inaugurou seu primeiro Lar (na foto, o salão) em 1941.

Muitos dos idosos atendidos tinham necessidades específicas e limitações físicas que exigiam atendimento especial. O Pavilhão José Teperman, térreo, facilitava o acesso de cadeirantes.

Médicos e enfermeira garantiam o atendimento a paciente doente do Lar dos Velhos.

Médicos e enfermeira garantiam o atendimento a paciente doente do Lar dos Velhos.

O Lar dos Velhos contava com Enfermaria e pessoal especializado.

Refeitório do Lar dos Velhos.

Fachada do antigo prédio do Asilo dos Velhos na Rua Dr. Pinto Ferraz, na Vila Mariana, inaugurado em 1941.

Entrada de um dos pavilhões, a partir do jardim central do Lar.

Grupo de moradores do Lar dos Velhos jogando cartas. Dignidade e vida comunitária aos mais necessitados.

Família Teperman em cerimônia na sinagoga do Lar dos Velhos na década de 1940.

Publicação comemorativa do primeiro aniversário de funcionamento do Lar dos Velhos, 1942.

Aron Hakodesh e Bimá da sinagoga do Lar dos Velhos.


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Pós-Segunda Guerra Mundial

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Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, refugiados e imigrantes chegaram ao Brasil e a São Paulo e, além das entidades já existentes, novas organizações surgiram para apoiar os recém-chegados. Eram sobreviventes do Holocausto que vieram após 1945 e, depois, imigrantes do Egito, da Hungria, da Síria e do Líbano, entre outros. A comunidade judaica estava muito mais estruturada, mas os esforços requeridos para receber e integrar os novos integrantes foram igualmente expressivos.

Federação Israelita do Estado de São Paulo – Fisesp

Desde sua fundação em 1946, a Federação Israelita do Estado de São Paulo trabalhou para receber os imigrantes e refugiados, estabelecendo um Conselho de Assistência Social, um Serviço Social de Imigrantes e coordenando a ação com outras organizações. Primeiro chegaram milhares de sobreviventes do Holocausto.

Centro Israelita de Assistência ao Menor – Ciam

“Dois fatores contribuíram muito para o sucesso do Ciam: a qualidade dos voluntários que o fundou e a separação, desde o início, entre os voluntários e a equipe técnica. Já no primeiro estatuto estavam claramente divididas as tarefas voluntárias (administrativas e financeiras) e as atribuições da comissão técnica.

Oficina Abrigada de Trabalho – OAT

A Oficina Abrigada de Trabalho – OAT – foi criada pela Hebrew Immigration Association Service (Hias) e transferida em 1956 para a Liga Feminina Israelita do Brasil, que passou a atender pessoas com deficiência intelectual e física.

Em 5 de outubro de 1944, a primeira página do jornal Crônica Israelita destaca as primeiras listas de sobreviventes e as ações de auxílio aos judeus europeus; no pós-guerra, a comunidade judaica se desdobrou no auxílio aos imigrantes e aos judeus de além-mar.

Campanha Unida de 1947 para promover o estabelecimento dos novos imigrantes e a assistência social local.

O Centro Israelita de Assistência ao Menor – Ciam –, criado em 1959 por pais, entidades e profissionais da comunidade judaica, atendia as “crianças excepcionais”, termo que se utilizava na época.

Folheto de divulgação do Ciam, entidade criada para atender a “criança excepcional”, como se dizia na época, “um grande problema do qual poucos conhecem a existência e que muito poucos procuram compreender”.

Publicação da Liga Feminina Israelita do Brasil que, em 1956, assumiu a Oficina Abrigada de Trabalho criada pela Hias.

No período do pós-guerra foram criadas as Oficinas Abrigadas de Trabalho, como a fundada pela Hias e a que funcionava dentro do Lar dos Velhos, para atender pessoas com dificuldade de inserção no mercado de trabalho..


Diretor Executivo

Felipe Arruda

Diretora de Acervo e Memória

Roberta Sundfeld

Diretora de Comunicação

Marilia Neustein

Diretora de Curadoria e Participação

Ilana Feldman

Coordenação

Gerente de Projetos do Centro de Memória do Museu Judaico de São Paulo

Linda Derviche Blaj

Curadoria

Roney Cytrynowicz

Pesquisa Histórica e Iconográfica

Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História

Monica Musatti Cytrynowicz

Projeto Gráfico

Zoldesign

Equipe do Centro de Memória do Museu Judaico de São Paulo

Maria Theodora Falcão Barbosa (Coordenadora de acervo)

Leonardo Nogueira Vitulli (Arquivista)

Anna Giulia Pereira (Estagiária)

José Messias Ribeiro Santos (Zelador)

Programação

Ex-Libris Comunicação Integrada

Ricardo Villar Martins

Antonio Carlos Oliveira Santos

Revisão de Texto

Mariangela Paganini

Digitalização de Imagens

Julia Thompson